Em 2025, os portugueses atingem os níveis mais altos de felicidade e satisfação com a vida desde o início do relatório do Observatório da Sociedade Portuguesa, em 2015. Contudo, esse bem-estar pessoal coexiste com uma crescente preocupação em relação a problemas estruturais do país, como o aumento do custo da habitação, a qualidade dos cuidados de saúde e a segurança no futuro.

Esta conclusão emerge do mais recente estudo do Observatório da Sociedade Portuguesa | Behavioral Insights Unit da Católica-Lisbon, que analisou, ao longo de 2025, os principais indicadores sociais, económicos e institucionais da sociedade portuguesa.

No mesmo ano, 71% dos inquiridos afirmam sentir-se felizes e 9,3% muito felizes. A satisfação com a vida também atinge o valor mais alto da série histórica, com 73,4% a considerarem-se satisfeitos e 8,7% muito satisfeitos. Estes resultados superam os níveis registados antes da pandemia, consolidando uma tendência de recuperação consistente do bem-estar individual.

Apesar deste cenário positivo, o estudo revela fragilidades estruturais persistentes. A segurança no futuro é identificada como a dimensão mais vulnerável do bem-estar, com 28,6% dos participantes a expressarem insatisfação ou muito insatisfação. Na área da saúde, embora 77,5% dos inquiridos avaliem o seu estado de saúde como bom ou superior, apenas 6,6% o consideram ótimo, um valor que representa o ponto mais baixo desde 2015, sinalizando uma deterioração na perceção da qualidade dos cuidados, apesar da avaliação global ainda ser favorável.

As preocupações com o futuro influenciam diretamente as perceções económicas das famílias. A maioria dos portugueses acredita que o rendimento familiar “dá para viver” (48,7%) ou “dá para viver confortavelmente” (12,7%). No entanto, os dados mostram uma reavaliação significativa do limiar mínimo de rendimento necessário para cobrir as despesas mensais. Em apenas um ano, a percentagem de participantes que considera um valor inferior a 1000 euros como suficiente desceu de 63,2%, em 2024, para 22,7%, em 2025. Por outro lado, a proporção de quem indica a necessidade de rendimentos superiores a 1500 euros aumentou de 10,7% para 44,8%, refletindo o impacto direto do aumento do custo de vida.

Nesse contexto, o interesse em poupança permanece elevado, com 62,6% dos inquiridos a demonstrar grande interesse em economizar, indicativo de uma postura prudente e defensiva das famílias. Ao mesmo tempo, os indicadores de confiança económica mostram sinais de recuperação. O Índice de Confiança Económica (ICE) continua negativo (-10,6), mas melhora em 5,5 pontos percentuais em relação a julho de 2024, corroborando uma trajetória gradual de recuperação das expectativas económicas.

Relativamente à confiança nas instituições, o estudo identifica um claro fosso entre a confiança nas instituições europeias e a avaliação da governação nacional. A União Europeia é vista como um fator de estabilidade, com 49,6% dos inquiridos expressando confiança, em contraste com 17,2% que manifestam desconfiança. Esta perceção é acompanhada por um consenso significativo: 74,1% concordam que Portugal está melhor posicionado para enfrentar desafios futuros como membro da União Europeia.

Por outro lado, a avaliação da atuação do Governo revela níveis de satisfação particularmente baixos em áreas que impactam diretamente o dia a dia dos cidadãos. O aumento do custo da habitação é a dimensão pior avaliada (2,45 numa escala de 1 a 10), seguido da oferta de habitação nos centros urbanos (2,93), da corrupção (2,96), da habitação pública (3,11), da pobreza (3,31) e da desigualdade social (3,67).

Rita Coelho do Vale, professora da Católica Lisbon School of Business and Economics e coordenadora do estudo, afirma que «a edição de 2025 do Observatório revela um país a duas velocidades: uma esfera privada caracterizada por altos níveis de felicidade e satisfação pessoal e uma esfera coletiva marcada por ansiedade e desconfiança em relação a problemas estruturais ainda não resolvidos, como a habitação e a saúde. Este desfasamento é um dos sinais mais relevantes da sociedade portuguesa atual».

O Observatório da Sociedade Portuguesa | Behavioral Insights Unit acompanha, de forma contínua desde 2015, os indicadores de bem-estar, confiança institucional e perceções económicas em Portugal. Os dados desta edição foram recolhidos em julho de 2025, por meio de um inquérito online aplicado a uma amostra representativa de 1134 participantes do Painel de Estudos Online da universidade.

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