A indústria automóvel global está a passar por uma transformação estrutural significativa, impulsionada pela ascensão das marcas chinesas, pela aceitação crescente dos veículos elétricos, pela diminuição da lealdade às marcas, pela evolução da condução autónoma e pela demanda crescente por experiências digitais. Estas são algumas das conclusões do estudo “What Car Buyers Want: A Global Guide for Automotive OEMs”, realizado pelo Boston Consulting Group (BCG), que analisou as preferências de mais de 9000 consumidores em dez países.
O recente relatório indica que, para os fabricantes deste setor, que historicamente enfrentaram surpresas e mudanças drásticas, os próximos cinco anos serão cruciais para sustentar sua relevância e competitividade num cenário que se tornou mais fragmentado, digital e incerto.
Neste contexto, a BCG identifica cinco tendências estruturais que irão influenciar o comportamento de compra nos anos vindouros, evidenciando um mercado mais exigente, conectado e menos preso a escolhas tradicionais.
1. Abertura crescente para a compra de veículos chineses, especialmente nos mercados emergentes e na Europa
O impacto dos fabricantes de equipamentos originais (OEMs) chineses está a crescer rapidamente, em parte devido aos preços competitivos oferecidos pela tecnologia avançada dos veículos elétricos a bateria (BEVs). Entre 10% e 20% dos consumidores europeus considera adquirir um carro chinês, um valor que supera a atual quota média de 4% dessas marcas na União Europeia, indicando um potencial significativo para crescimento. Em mercados como o Brasil, essa disposição atinge até 36%.
Na China, 85% dos consumidores estão mais abertos a optar por marcas nacionais, que já detêm 69% do mercado. Em contraste, os Estados Unidos destacam-se como uma exceção, com apenas 7% dos entrevistados demonstrando a intenção de comprar um veículo chinês.
2. A transição para BEVs avança lentamente, mas de forma consistente
Os consumidores tendem a preferir manter o tipo de motor do veículo atual. O relatório destaca que:
- 71% dos atuais condutores de BEVs planejam adquirir novamente um veículo elétrico, um indicativo de elevada satisfação e compromisso a longo prazo;
- Por outro lado, apenas 50% dos motoristas de veículos com um sistema de propulsão diferente (não BEV) planeja manter o mesmo tipo de motor na próxima compra.
A motivação para essa transição varia conforme a região:
- Em geral, as preocupações ambientais continuam a ser um fator chave;
- Na Europa, o principal aspecto são os custos e economias;
- Nos Estados Unidos e na China, a tecnologia e as funcionalidades avançadas são as principais motivações.
No entanto, ainda existem reservas relacionadas a mitos persistentes sobre autonomia, velocidade de carregamento e custo inicial, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, onde 24% e 28% dos consumidores, respectivamente, afirmam que nunca trocarão para um BEV.
3. A lealdade à marca está em declínio, com uma tendência liderada pelos consumidores mais jovens
Os fabricantes estabelecidos não podem contar com a lealdade dos seus clientes. Nos Estados Unidos e na Europa, cerca de 40% dos consumidores pretendem comprar a mesma marca novamente, enquanto esse número entre as gerações mais jovens cai para 21%. Na China, o fenômeno é ainda mais acentuado, com cerca de 10% dos consumidores planejando repetir a marca, refletindo a dinâmica e a competitividade intensa desse mercado.
A diminuição da fidelidade é evidente em todas as regiões, mas se destaca entre os consumidores jovens, que mostram maior disposição para novas marcas, tecnologias e modelos de compra.
4. A aceitação das tecnologias de condução autónoma está a crescer, embora a confiança varie por região
A percepção sobre a condução autónoma está a mudar rapidamente:
- 79% dos utilizadores de veículos com funcionalidades autónomas consideram-nas úteis;
- Entre aqueles que nunca as utilizaram, 45% reconhecem o seu valor potencial;
- A aceitação da autonomia total é bastante polarizadora: mais de 60% estariam dispostos a viajar em um táxi totalmente autónomo na China, enquanto na Europa e nos EUA a aceitação é substancialmente menor (30%), refletindo uma maior apreensão.
5. A digitalização tornou-se essencial na experiência de compra e uso
A transformação digital tomou conta do setor automóvel, moldando desde a decisão de compra até a utilização diária:
- 31% dos consumidores afirmam que comprarão seu próximo veículo totalmente online, sem ver fisicamente o carro. Entre os mais jovens, essa proporção sobe para 44%;
- Os consumidores valorizam fortemente o acesso a ecossistemas digitais e uma variedade de opções (Apple, Android e sistemas proprietários);
- A maioria exige atualizações over-the-air (OTA), indicativo de que funcionalidades digitais contínuas se tornaram um fator crítico na escolha do veículo.
