A premiada argumentista brasileira Renata Elis publica A Inclusão Tem Prazo de Validade, um livro que expõe o etarismo, o nepotismo e o acesso pago na indústria audiovisual global.
As políticas de diversidade, equidade e inclusão tornaram-se uma das estratégias de relações públicas favoritas de grandes corporações, plataformas e instituições do setor audiovisual. Mas, nos bastidores, a realidade é, muitas vezes, bem diferente.
Com a publicação do seu primeiro livro, A Inclusão Tem Prazo de Validade, a argumentista, dramaturga e professora de teatro Renata Elis oferece um diagnóstico incisivo e incómodo de uma das formas de discriminação socialmente mais toleradas no entretenimento: o etarismo, sobretudo quando afeta mulheres de meia-idade.
A obra é um manifesto-memória satírico que expõe como a indústria do entretenimento vende a ilusão de acesso, ao mesmo tempo que continua a proteger redes fechadas, nepotismo e mecanismos de entrada baseados no pagamento.
Ao contrário dos livros tradicionais sobre cinema e televisão, A Inclusão Tem Prazo de Validade adota uma estrutura original: está organizado como uma série televisiva de quatro temporadas, com cada capítulo a funcionar como um episódio de uma investigação contínua.
A narrativa acompanha o percurso complexo da autora enquanto tenta regressar à indústria audiovisual como profissional de meia-idade nos Estados Unidos e na Europa. Munida de prémios, credenciais e anos de experiência, Elis descobre que o sistema permanece medieval, apenas agora disfarçado com jargão politicamente correto.
O livro desmonta a forma como os workshops de guionismo, as bolsas de diversidade, os fóruns de apresentação de projetos e os programas de acesso podem funcionar como um “negócio da esperança”: um mercado que se alimenta dos sonhos dos criadores, mantendo o acesso real limitado a uma pequena elite rotativa.
Critica também a lógica económica mais ampla que sustenta muitas das práticas excludentes da indústria, incluindo o acesso pago, o nepotismo, a validação pelo prestígio e a mercantilização da ambição criativa. Elis defende que o problema reside não apenas em quem aparece no ecrã, mas em quem tem o direito de criar, vender, financiar e deter a propriedade das histórias.
Baseando-se na sua experiência internacional, em dados da indústria, investigação académica e declarações públicas de atrizes reconhecidas que falaram sobre a sua marginalização com o passar dos anos, Elis aponta para uma contradição sistémica: embora a representatividade pareça estar a expandir-se nos ecrãs, as mulheres maduras permanecem invisíveis tanto à frente como atrás das câmaras.
Esta invisibilidade não é apenas cultural, defende, mas também comercialmente irracional. A indústria do entretenimento continua a ignorar um dos públicos mais fiéis, experientes e economicamente poderosos do mercado: as mulheres com mais de 50 anos.
No final de A Inclusão Tem Prazo de Validade, Elis vai além da crítica com um manifesto e um apelo à mudança. Em vez de procurar permissão junto das próprias instituições que questiona, defende novos modelos de propriedade criativa, produção independente e narrativa centrada no público.
O livro é simultaneamente pessoal e político: uma autobiografia sobre a tentativa de uma mulher de recuperar o seu espaço criativo e uma denúncia mais ampla de uma indústria que frequentemente transforma a inclusão numa estratégia de marketing, mantendo o poder exatamente onde sempre esteve.
