Requalificação como a estratégia essencial para 2026.
Por: Jil Ribeiro, gerente de Outplacement e Mobilidade de Carreira da Randstad.
Ao refletirmos sobre o passado, é fácil rir de profissões como o “despertador humano”, que batia nas janelas dos trabalhadores para acordá-los, ou o “acendedor de lampiões”, que acendia e apagava os lampiões a gás ou óleo. Hoje, essas ocupações podem parecer obsoletas, embora tenham desempenhado papéis cruciais na sociedade. Essa reflexão nos leva a considerar: quais profissões ou atividades talvez nos façam rir no futuro?
Esse pensamento nos leva a dois pontos fundamentais que moldarão o mercado em 2026. O primeiro é que a tecnologia está substituindo uma variedade crescente de funções, desde as mais simples até as analíticas e complexas. O segundo é a rapidez com que essa transformação está acontecendo: em um ritmo acelerado. Isso nos faz perceber a urgência de nos adaptarmos. Se houvesse uma palavra-chave que definisse o foco das organizações hoje, essa palavra seria: REQUALIFICAR.
No contexto de uma rápida evolução tecnológica e a crescente necessidade de adaptação, o upskilling e o reskilling deixaram de ser meras ferramentas e tornaram-se o cerne da mobilidade de carreira.
Segundo o World Economic Forum, 63% dos empregadores identificam a lacuna de competências como a principal barreira para a transformação de seus negócios. Identificada a dor, precisamos pensar em como curá-la. Embora a contratação externa seja uma opção válida, enfrentamos um mercado no qual as competências mais desejadas também são escassas. Portanto, a mobilidade interna, ou seja, a capacidade de transformar um colaborador atual em um profissional do futuro, tornou-se a vantagem competitiva mais estratégica que uma empresa pode ter.
COMPETÊNCIAS PARA O FUTURO
As competências técnicas estão sendo rapidamente absorvidas pelas máquinas. O que o mercado vai demandar em 2026 são as soft skills que garantem agilidade na mobilidade. Destaco três pilares:
- Literacia digital: Embora não seja um conceito novo, sua profundidade e relevância mudaram. Não se trata de adquirir competências uma única vez, mas de uma atualização constante, pois estar atualizado é um estado contínuo, e não um destino final.
- “Change Fitness”: Introduzido pela professora Tsedal Neeley da Harvard Business School, refere-se à habilidade de mudar e adaptar-se de forma contínua e rápida. Essa agilidade será uma competência fundamental, independentemente da função ou setor de atuação.
- Validação por micro-credenciais: Jeff Maggioncalda, CEO do Coursera, argumenta que as micro-credenciais estão se tornando mais relevantes do que os diplomas tradicionais. O Randstad Workmonitor 2026 confirma que 87% dos recrutadores valorizam mais as competências e experiências do que os títulos, promovendo trajetórias mais fluidas e personalizadas.
Comumente acredita-se que a necessidade de requalificação se limita a funções operacionais ou administrativas. No entanto, em 2026, até mesmo funções ligadas à análise de dados e programação poderão ser dispensáveis, se não evoluírem.
A análise crítica que precisamos fazer constantemente é: de que forma a Inteligência Artificial pode agregar valor a essa tarefa? Se a resposta for “com maior rapidez e melhor execução”, a função requer um novo desenho. Nos programas de transição e mobilidade de carreira da Randstad, o foco mudou. Se antes a análise se centrava no breve prazo (o próximo cargo nos próximos meses), hoje as projeções exigem uma visão de longo prazo. A questão não é apenas sobre o cenário atual, mas sobre a atratividade e relevância para o futuro.
Isso nos leva a outro conceito importante: a sustentabilidade. Criar um futuro de trabalho sustentável vai além do impacto ambiental, envolvendo a maneira como desenhamos ambientes de trabalho mais humanos e promovemos trajetórias de carreira resilientes.
A requalificação para a mobilidade é, em essência, uma prática de sustentabilidade social. Ao capacitar um colaborador com novas ferramentas, estamos não apenas protegendo sua empregabilidade, mas também assegurando que a organização não desperdice capital humano. Nossa equipe de Talent Transition na Randstad conta com profissionais focados em atuar como Embaixadores da Sustentabilidade, reforçando o compromisso de criar trajetórias duradouras que acompanhem as demandas de um mercado que não aceita mais modelos de trabalho obsoletos.
Na Randstad, auxiliamos diariamente empresas e profissionais a identificar lacunas, utilizando metodologias robustas e testadas. Desde o mapeamento de talentos até a formação personalizada e coaching de carreira, acreditamos que a maneira como isso é apresentado é crucial para o sucesso. Assim como no processo terapêutico, a verdadeira mudança não ocorre quando imposta, mas sim quando é desejada pela própria pessoa. No ambiente corporativo, isso também é válido. Para uma mudança significativa, o colaborador deve ser valorizado, não apenas um número; ele precisa ser reconhecido e envolvido no processo. Quando a jornada de aprendizado é co-criada, o colaborador torna-se o protagonista de sua própria carreira. Isso resulta em duas vantagens evidentes: a resistência se dissipa, pois ele sente que tem controle, e o compromisso se fortalece, uma vez que a aprendizagem passa a ter um propósito pessoal e não apenas uma obrigação profissional.
Essa perspectiva está alinhada com o que os trabalhadores modernos desejam. O Randstad Workmonitor 2026 revela que as pessoas estão se afastando da “escada corporativa” e migrando para o “Portefólio de Carreira”. Elas buscam diversificar suas competências para garantir segurança e variedade.
O que a empresa precisa (talento humano orientado para a estratégia) e o que o colaborador busca (trajetórias personalizadas e flexíveis) convergem. Ao adotar o conceito de portfólio de carreira, o profissional ganha liberdade para desenhar sua própria trajetória, enquanto a empresa se beneficia de um talento multifacetado.
Se analisamos sob uma ótica positiva, todos se beneficiam: a IA está facilitando o alinhamento entre o sucesso empresarial e a realização pessoal. Requalificar para promover a mobilidade é, acima de tudo, um ato de inteligência estratégica e responsabilidade. O futuro do trabalho requer essa visão, e essa visão deve ser implementada agora.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Upskilling & Reskilling”, publicado na edição de Fevereiro (nº. 182) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, naversão impressa e naversão digital.
