O estresse e o cansaço dos trabalhadores atingiram níveis alarmantes. No entanto, e se o cansaço não for o principal problema que deve preocupar os líderes? E se o tédio representar uma ameaça ainda mais significativa à produtividade e ao bem-estar dos colaboradores? O boreout é uma condição em que um profissional enfrenta um tédio persistente e uma falta de propósito em seu trabalho.

Segundo a Fast Company, isso está intimamente ligado ao que o psicólogo Adam Grant descreve como “languishing”, uma sensação de estagnação e vazio que persiste, manifestando-se como um desinteresse geral. Esse estado pode surgir da ausência de atividades estimulantes, de tarefas repetitivas, ou da incompatibilidade entre as expectativas e a realidade vivida.

A expressão “boreout” foi introduzida em 2007 no livro “Diagnose Boreout”, escrito por Peter Werder e Philippe Rothlin. Segundo a pesquisa de Rothlin e Werder, são três os principais componentes que o definem: tédio, falta de desafios e desinteresse profissional.

O boreout pode levar a estresse, depressão, insônia e a um aumento na rotatividade de pessoal. Este mal-estar psicológico tornou-se comum em tempos de reuniões intermináveis, e-mails sem propósito e excesso de burocracia. Pior ainda, o boreout pode criar um ambiente organizacional propenso à desresponsabilização, ao vitimismo e à complacência. Se não for tratado, o boreout pode comprometer o desempenho e o bem-estar de uma equipe.

A crescente incidência de boreout serve como um alerta para que os líderes se concentrem no propósito do trabalho de seus colaboradores. Não é viável explorar novas oportunidades, lidar proativamente com problemas ou identificar áreas de aprimoramento em uma cultura dominada pelo boreout.

O papel dos líderes precisa evoluir de meros “guardiões” do status quo para agentes que desafiem esse status quo. Algumas culturas organizacionais priorizam o trabalho burocrático e indicadores de desempenho baseados na conformidade, em detrimento de práticas inteligentes e indicadores de comportamento baseados em inovação. Essa abordagem de liderança é contraproducente, especialmente em um cenário de constante disrupção. A melhor maneira de enfrentar as forças disruptivas é construir organizações nas quais as pessoas possam acolher a mudança — como as inovações em inteligência artificial e a revolução das competências — como uma oportunidade para aprendizado contínuo, crescimento e realização profissional.

É urgente a adoção de um novo modelo de liderança que se adeque à era da inteligência artificial, onde as pessoas possam prosperar em culturas fundamentadas em valores e confiança, unindo crescimento, significado e o desenvolvimento de habilidades ao longo da vida.

O primeiro passo é enfrentar a principal causa do boreout: a burocracia.

Um dos grandes paradoxos da liderança é que, enquanto a tecnologia avança rapidamente, os seres humanos tendem a permanecer os mesmos. Como resultado, muitos líderes enfrentam um descompasso em sua capacidade de lidar com a burocracia, que se torna excessiva e aumenta o tédio.

Muitas organizações tornaram-se lentas, isoladas e ultrapassadas. Em uma pesquisa realizada pelos acadêmicos Gary Hamel e Michele Zanini, quase dois terços dos entrevistados afirmaram que seus locais de trabalho se tornaram mais burocráticos nos últimos anos. É crucial eliminar tarefas burocráticas improdutivas e redirecionar essas energias para atividades que gerem valor.

Um exemplo de excesso burocrático é a quantidade de reuniões realizadas. Em 2016, pesquisadores como Rob Cross, Reb Rebele e Adam Grant descobriram que o tempo dedicado pelos trabalhadores a reuniões aumentou 50% desde a década de 1990. A boa notícia é que reduzir o número de reuniões pode ser uma estratégia eficaz para mitigar o boreout e aumentar a produtividade das equipes.

Talvez o maior risco a longo prazo para o desempenho, bem-estar e crescimento resiliente seja o boreout, que veio para ficar. Com diversas profissões ameaçadas de automação e transformação devido ao avanço acelerado da inteligência artificial, o cultivo da curiosidade humana é o único caminho viável.

É essencial estabelecer e demonstrar novas formas de trabalho que incentivem as pessoas a optar pela curiosidade (adotar ideias que desafiem o status quo) em vez da conformidade (rejeitar ideias que desafiem o status quo). E os líderes devem criar ambientes de confiança, fundamentais para prevenir essa ameaça ao bem-estar e à saúde mental.

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