Por Ana Lapa, docente do Mestrado de Psicologia Social e das Organizações, investigadora no William James Center for Research, Ispa – Instituto Universitário; e Ana Sabino, docente do Mestrado de Psicologia Social e das Organizações, investigadora no APPsyCI, Ispa – Instituto Universitário
“Aquele candidato tem cara de…” ou “com essa roupa não chegará a lado nenhum!” Já se deparou com frases como estas em sua vida ou no ambiente de trabalho? Será que há alguma veracidade nessas afirmações?
A Psicologia, especialmente a cognição social, pode oferecer respostas a essas perguntas, pois busca entender os mecanismos cognitivos das pessoas, isto é, o como é que acontece e o porque é que acontece. Hoje, abordaremos os processos de gestão de impressões e a percepção que formamos sobre os outros. Esta é uma questão que permeia nossas vidas, mas se torna especialmente relevante no contexto laboral, onde frequentemente avaliamos e somos avaliados – como em recrutamentos, avaliações de desempenho ou apresentações a clientes.
A gestão de impressões revela que formamos impressões sobre a personalidade dos outros, inferindo traços com base em comportamentos e na aparência. Vários estudos indicam que, apenas pela aparência facial, tendemos a inferir características como competência e agradabilidade, e a tomar decisões sobre a confiança que podemos depositar na pessoa. E surpreendentemente, as evidências científicas mostram que fazemos essas inferências em menos de um segundo! É interessante considerar as consequências desse processo: as avaliações instantâneas podem não refletir a verdadeira personalidade das pessoas, mesmo que acreditemos que sim, e essas inferências impactam nosso comportamento.
Vejamos alguns exemplos de diferentes contextos. Pesquisas de Todorov mostram que as avaliações de competência baseadas na aparência de candidatos políticos estão ligadas ao sucesso eleitoral, mesmo quando feitas em frações de segundo.
Outras investigações sugerem que a aparência está relacionada ao sucesso econômico de CEOs e suas empresas: aqueles que são percebidos como mais competentes e confiáveis, com base em sua aparência, tendem a obter resultados financeiros mais lucrativos. Curiosamente, esse fenômeno se repete mesmo quando se utilizam fotos dos CEOs tiradas durante sua graduação, ou seja, 20, 30 ou 40 anos antes do sucesso ou fracasso de suas empresas!
Esse processo de inferência de características não se restringe apenas à aparência facial. Estudos também mostram que julgamos determinadas qualidades das pessoas com base nas roupas que usam. Os resultados indicam que tendemos a considerar pessoas mais competentes quando vestem roupas associadas a status econômico elevado. Embora as pessoas não avaliariam as roupas de forma explícita, a vestimenta influencia sua percepção de competência. Vale ressaltar que isso ocorre mesmo em avaliações realizadas em 129 milésimos de segundo. O mais intrigante é que, quando os participantes foram instruídos a ignorar as roupas, o efeito ainda permaneceu.
Poderíamos continuar a mencionar outras dimensões que usamos, consciente ou inconscientemente, na formação de impressões sobre os outros. Essas dimensões são cruciais no ambiente de trabalho – idade, etnia, gênero, entre outras. Como spoiler para um possível artigo futuro, deixamos algumas referências: os estudos têm mostrado que o conhecimento e a competência são frequentemente atribuídos aos homens, enquanto a agradabilidade e o warmth (calor humano) são ligados às mulheres. Existe também uma tendência de avaliar mais positivamente pessoas asiáticas e brancas, em comparação com indivíduos negros e da América Latina.
Por fim, deixamos um convite à reflexão – incentivamos todos os leitores a pensarem sobre como percebem os outros e como são percebidos. O que isso significa para quem recruta, avalia ou lidera pessoas? Se sabemos que essas avaliações ocorrem em menos de um segundo, o que podemos (realisticamente) fazer com essa informação?
