O projeto de saúde mental “Let’s Talk About Children” (LTC), coordenado em Portugal pela Universidade de Coimbra (UC), visa reduzir a percentagem de jovens com sintomas depressivos, distúrbios de ansiedade e problemas de comportamento nos próximos anos.
Atualmente, cerca de 30% dos jovens em Portugal apresentam esses sintomas, e espera-se que esse número diminua com a implementação da metodologia psicossocial LTC, que foi criada na Finlândia há 20 anos.
«Neste momento, não temos dados próprios, mas as informações dos países que já adotaram o método indicam que a redução [de jovens com problemas de saúde mental] poderá ser em torno de 20%», revelou o coordenador, Joaquim Cerejeira.
De acordo com o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da UC, as evidências da Finlândia mostram uma diminuição significativa de cerca de 25% nas referências de crianças com problemas de saúde mental, «pois a intervenção ocorre antes que os problemas se manifestem».
«Essa intervenção é simples, de baixo custo e eficaz, prevenindo que problemas menores se tornem complicados, utilizando as famílias como recurso principal na promoção da saúde mental», esclareceu.
Joaquim Cerejeira considerou alarmante a elevada percentagem de jovens portugueses com problemas mentais e criticou a atual resposta «que é de fim de linha, com serviços de saúde especializados, como a psiquiatria e a pedopsiquiatria, que não conseguem atender a números tão altos».
«É necessário adotar um paradigma preventivo e evitar que as crianças desenvolvam esses sintomas, que podem se prolongar na vida adulta. Esta abordagem LTC é exatamente nessa direção», defendeu o especialista.
A primeira fase do projeto culminou com o simpósio “Vamos falar sobre crianças – da evidência à ação”, realizado no Hospital Pediátrico de Coimbra, após três anos capacitando profissionais da saúde e educação para identificar e apoiar crianças antes que os problemas se tornem graves ou crônicos.
Desde sua implementação em Portugal, em outubro de 2023, 85 profissionais, incluindo professores, psicólogos, médicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, foram certificados na metodologia, formando uma rede multidisciplinar para apoiar diretamente crianças e famílias.
Durante esse período, cerca de 400 famílias com crianças foram atendidas.
«A partir de agora, começaremos a realizar estudos observacionais para entender em que medida essa intervenção reduzirá os índices de crianças e jovens com problemas de saúde mental», destacou Joaquim Cerejeira.
Para o psiquiatra, o maior desafio do projeto é mudar o paradigma atual, que é «muito focado em tratamentos e na resposta a crises e problemas, para um enfoque preventivo, atuando antes que os problemas surjam ou intervir rapidamente para evitar que se tornem mais sérios».
«Nossas instituições estão bastante organizadas para responder a problemas, mas não tanto para prevenir, o que torna difícil reestruturar os serviços e as funções de cada profissional. É essencial garantir mais tempo para atividades de prevenção, em vez de apenas responder a problemas», enfatizou.
O LTC é um projeto europeu, coordenado pela Universidade de Turku, na Finlândia, que conta com um financiamento de três milhões de euros da Comissão Europeia, no âmbito do programa EU4Health.
A partir de agora, Portugal dará continuidade ao desenvolvimento de iniciativas com a equipe nacional do LTC, seguindo com a formação de profissionais na UC e realizando estudos de campo para medir o impacto na saúde das populações.
Além disso, segundo Joaquim Cerejeira, está previsto também o envolvimento com parceiros fora de Portugal em iniciativas em nível europeu.
