Foi noticiado que os 120 anos da Livraria Lello seriam, entre outros acontecimentos, celebrados pela adoção do azul no seu símbolo de distinção. Justificava-se pela «cor dos azulejos típicos da cidade, do mar e do rio que a abraçam». De fato, a cor portuense é o azul, mas por motivos muito mais sérios e profundos, que remontam ao século XIX e à vitória liberal após a epopeia do Cerco do Porto.
Entre 1830 e 1910, a bandeira nacional foi azul e branca, e até o republicano Guerra Junqueiro apresentou ao governo do regime instaurado em 5 de Outubro daquele último ano um projeto de bandeira que continha as mesmas cores. Existem também testemunhos, descritos por Alberto Pimentel, de que, na jornada que antecedeu o Cerco, os soldados liberais recolheram hidrângeas azuis e brancas, que colocaram nos canos das espingardas. Assim entraram na cidade, pela Rua de Cedofeita, onde muitas senhoras, saudando-os, penduraram colchas também azuis nas varandas e janelas.
Após a vitória liberal, por Decreto de 14.1.1837, redigido «com muito amor» por Garrett e assinado por Passos Manuel, o governo concedeu à cidade o título de «Invicta», atribuído ao seu novo brasão, que continha «o dragão negro das antigas armas dos senhores reis destes reinos, com a divisa em letras de ouro sobre fita azul». Este símbolo, que honrava o Burgo e os tripeiros, foi vergonhosamente substituído, por Portaria de 25.4.1940, do governo salazarista, por uma lamentável proposta da CMP, invocando erros heráldicos. A cor azul passou ao verde atual, numa bandeira normalizada para todos os municípios.
A dignidade daquele brasão, de que nos podemos orgulhar, foi mantida pelo FCP, que, desde a fundação, o adotou no seu emblema. E o azul retorna agora, neste ato da Lello. Talvez um dia, contra os pruridos centralistas dos guardiões da heráldica que iludem e confundem a História, o Burgo possa reassumir o seu mais coerente distintivo. Já propus a um Presidente da Câmara que consultasse os portuenses sobre o assunto, através de um referendo, para que escolhessem entre o brasão liberal e o do Estado Novo. Esteve quase, mas sucederam eleições e a iniciativa não se concretizou.
Artigo de Helder Pacheco
