Nelson Ferreira Pires, administrador e diretor-geral da Jaba Recordati em Portugal e na Grécia, afirma que «a principal dificuldade da qual empresas e profissionais estão menos preparados é a gestão eficaz de pessoas em um ambiente de incerteza permanente, acentuada pela rápida adoção da inteligência artificial».
O principal desafio da Gestão de Pessoas em 2026 será assegurar a coerência entre estratégia, liderança e a experiência real dos colaboradores, em um cenário de crescente integração da inteligência artificial (IA) no trabalho. As organizações enfrentam, ao mesmo tempo, maior pressão externa por resultados e um maior escrutínio interno por parte das suas equipas. Os colaboradores estão mais conscientes do seu valor e menos tolerantes a incoerências entre o que é comunicado e o que é praticado.
Além disso, à medida que a tecnologia assume tarefas analíticas, repetitivas e de apoio à decisão, a Gestão de Pessoas precisará evoluir para o desenvolvimento de duas das sete inteligências identificadas pela Gartner, nomeadamente a inteligência intrapessoal e interpessoal. A autoconsciência, empatia, comunicação, colaboração e a capacidade de tomar decisões responsáveis serão cruciais para manter equipas alinhadas, líderes eficazes e altos níveis de engajamento, desempenho e retenção de talento.
A dificuldade que empresas e profissionais enfrentam é a gestão eficaz de pessoas num contexto de incerteza permanente, acentuada pela aceleração da inteligência artificial. O trabalho híbrido, a redefinição constante de prioridades e a rápida evolução tecnológica tornaram a mudança uma constante. No entanto, muitos modelos de liderança, avaliação de desempenho e desenvolvimento de talento ainda se baseiam em pressupostos de estabilidade, previsibilidade e controle.
Adicionalmente, a IA é frequentemente vista apenas como uma ferramenta técnica ou, de maneira oposta, como uma ameaça, faltando uma abordagem equilibrada que una literacia digital, ética, responsabilidade e desenvolvimento humano. Essa falta de preparação gera frustração, decisões procrastinadas e dificuldades em alinhar expectativas, comprometendo a agilidade e a sustentabilidade das equipas.
Prioridades e futuro
Na Jaba Recordati, estabelecemos três prioridades claras para 2026. Em primeiro lugar, o desenvolvimento das inteligências intrapessoal e interpessoal, por meio de programas estruturados de liderança, coaching e formação contínua, alinhados com o modelo das sete inteligências da Gartner.
Em segundo lugar, a integração da inteligência artificial como ferramenta de eficiência na estrutura de pessoas, aplicando-a a processos como planejamento, análise de dados, relatórios e apoio à decisão, liberando tempo para atividades que exigem julgamento humano e proximidade com as equipas.
Por fim, o fortalecimento de uma cultura de aprendizado contínuo, diversidade, inclusão e bem-estar, reconhecendo que o desempenho sustentável depende diretamente da saúde, motivação e desenvolvimento das pessoas.
Em 2030, a principal mudança no mundo do trabalho será a clara separação entre tarefas automatizáveis e contribuições humanas de alto valor. As organizações tenderão a se estruturar menos em torno de cargos fixos e mais em torno de competências, projetos e impacto real. A inteligência artificial será um fator decisivo de eficiência, mas o verdadeiro diferencial competitivo estará nas habilidades humanas mais difíceis de replicar: pensamento crítico, empatia, ética, liderança e autoconsciência.
A relação entre empresas e profissionais será mais transparente e exigente, fundamentada em responsabilidade mútua, aprendizado contínuo e um propósito claro. Nesse contexto, a Gestão de Pessoas se solidificará como um eixo central da liderança e da competitividade organizacional.
Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº. 181) da Human Resources.
